segunda-feira, 18 de maio de 2026

Artistas Mulheres: tensões e reminiscências

 “Artistas Mulheres: tensões e reminiscências” é uma proposta curatorial objetiva: exibir todas as artistas mulheres da Pinacoteca Ruben Berta em uma única exposição, uma vez que são apenas vinte e duas artistas com 25 obras.


     Doada à Prefeitura de Porto Alegre na década de 1970, a Pinacoteca Ruben Berta se caracteriza como um acervo fechado, ou seja, é constituída apenas pelas obras doadas no momento de sua criação e não realiza mais aquisições. A concepção desse acervo é parte da Campanha Nacional dos Museus Regionais idealizada pelo jornalista e colecionador de arte Assis Chateaubriand com o auxílio de Pietro Maria Bardi, que objetivava descentralizar o foco cultural do eixo Rio-São Paulo, possibilitando a criação de um repertório de arte visual brasileira. 


     Por outro lado, a seleção de obras acabou impondo um modelo de arte modernista que em muitas vezes se apropria de narrativas étnicas e de gênero sem permitir a determinados grupos o protagonismo de suas próprias histórias. Nesse sentido, através do projeto de pesquisa “Mulheres nos Acervos”, constatamos que enquanto outros acervos públicos de arte foram modificando o perfil das suas coleções através de novas aquisições, a Pinacoteca Ruben Berta chega aos dias de hoje como um retrato do período em que foi constituída, exibindo a menor representatividade de gênero dentre os acervos investigados. 


     A tônica que complexifica o projeto aqui apresentado é o convite feito a três artistas contemporâneas para que, a partir de um olhar para o acervo, proponham obras de sua autoria que tensionem as questões de identidade e representatividade. Logo, Mitti Mendonça, Pâmela Zorn e Virgínia Di Lauro, tornam-se interlocutoras das artistas aqui expostas e, cientes das questões tão caras ao nosso tempo, apresentam ativações plurais, considerando as inúmeras especificidades de discursos, de poéticas e da materialidade das obras. Desta forma, o acervo é colocado em diálogo com outras vozes, tornando possível o surgimento de novas relações, narrativas e experiências.



Cristina Barros

Marina Roncatto

Mel Ferrari

Nina Sanmartin


de 14/09/2019 a 23/11/2019 


o que vemos, o que nos fala

 altair martins

               O que vemos, o que nos fala O que vemos, o que nos fala tem sua origem no convite feito por Flávio Krawczyk, diretor do acervo artístico de Porto Alegre, e por Adriana Boff, coordenadora de Artes Plásticas da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre, para escolher obras do acervo da Pinacoteca Ruben Berta e escrever sobre elas. Trata-se de um desafio: uma curadoria pela palavra. Conta também com o apoio do Instituto de Cultura da PUCRS.


            São bastante conhecidas as relações entre a literatura e as artes visuais. Esse tema da comparação entre as artes (o paragone) ganhou força durante o Renascimento, levando artistas como Leonardo Da Vinci a declararem que “A pintura é uma poesia muda e a poesia uma pintura cega" (LICHTENSTEIN, 2005, p. 19). Talvez por provocação, talvez por encantamento ou por genialidade, o poeta Carlos Drummond de Andrade, em Farewell, livro lançado postumamente em 1996, incluiu uma seção de poemas a que chamou de a arte em exposição. Aí o poeta mineiro "poetizou" brevemente obras de 27 pintores e escultores, desde o Renascimento até Cândido Portinari. Visível em Drummond é a abordagem, via palavras, do não dito nas artes visuais, o que acaba poeticamente interpretado, revelado e, lógico, recriado.


            De fato, parece que poesia pode reavivar a visualidade das obras a que se refere, mas também se potencializar a partir delas. É dizer que se trata de uma poética em trânsito, "paragônica", aspecto perceptível por Italo Calvino na Visibilidade de Seis propostas para o próximo milênio, a saber, as capacidades de evocação da imagem pelas palavras a partir da cultura e da experiência sensível:


Digamos que diversos elementos concorrem para formar a parte visual da imaginação literária: a observação direta do mundo real, a transfiguração fantasmática e onírica, o mundo figurativo transmitido pela cultura em seus diversos níveis, e um processo de abstração, condensação e interiorização da experiência sensível, de importância decisiva tanto na visualização quanto na verbalização do pensamento. (CALVINO, 1990, p. 110)


            Para esta exposição, o ponto de partida foi Didi-Huberman (O que vemos, o que nos olha). Buscou-se estabelecer o diálogo possível entre a imagem e seus ecos linguísticos, ou “linguagéticos”, no dizer do semiólogo Louis Marin: propor diálogo entre o visível e o suscetível, entre os significantes visuais e verbais que se entrelaçam toda vez que olhamos uma imagem e toda vez que lemos um texto. Didi-Huberman explicita que, dentro da imagem, discursos competem entre si, e as conexões de sentido fazem “de um simples plano ótico, que vemos, uma potência visual que nos olha na medida mesmo em que põe em ação o jogo anadiômeno [a partir de Vênus anadiômena, “a que sai das águas”], rítmico, da superfície e do fundo, do fluxo e do refluxo, do avanço e do recuo, do aparecimento e do desaparecimento” (DIDI-HUBERMAN, 2010, p. 33). Logo, a imagem de arte se abre em tautologia (o que é evidente aos olhos e que se “colhe” da imagem) e crença (o que é essencialmente da ordem da cultura, a desmatéria com que preenchemos a imagem). Ora, se a imagem também fala, é preciso escutá-la: captar suas vozes num diálogo infinito. Não se trata de dizer o que as imagens dizem, mas de dar vazão aos seus possíveis conteúdos linguísticos, buscando, em verso, dar corda às suscitações visuais. O resultado são 20 poemas acerca de 20 obras do acervo da Pinacoteca Ruben Berta, tendo como base uma escolha quase alheia à historiografia, que responde ao que as imagens puderam falar: sobre seu contexto artístico, sobre si mesmas. As obras, num escopo do séc. XIX ao XX, passando por clássicos desde Pedro Américo, Almeida Júnior e Di Cavalcanti às revoluções de Mário Gruber, Vilma Pasqualini e Tomie Ohtake, acabam por ilustrar que uma imagem exige que atentemos às suas referências intertextuais, leituras da própria crítica e da história das obras e dos artistas. Tudo vale: informações, estética individual e coletiva.


           Cabe dizer, ainda, que tanto a imagem visual é irredutível ao discurso verbal quanto as palavras são matéria de outra ordem, uma ordem que não se limita ao descritivo das impressões visuais. Por isso, longe do rigor de um trabalho científico, o resultado esperado é o deleite, como o trabalho artístico a que a palavra aqui se destina.

Altair Martins



Referências ANDRADE, Carlos Drummond de. Farewell. Rio de Janeiro: Record, 1996. CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio. Trad. Ivo Barroso. São Paulo: Cia. das Letras, 1990. DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. Trad. Paulo Neves. São Paulo, Editora 34, 2010. LICHTENSTEIN, Jacqueline (Org.). A pintura - vol 7: O paralelo das artes. Trad. Magnólia Costa. São Paulo: Editora 34, 2005.


de 24/01/2019 a 01/03/2019


O que vemos, o que nos fala


CLAUDIA PAIM: CORPOPAISAGEM

Claudia Paim: uma artista múltipla
Abordar essa exposição seria impossível sem me reportar às memórias marcantes de um tempo prazeroso de amizade e parceria artística com Claudia Paim (1961–2018). Conheci a artista no início dos anos 2000, quando a escrita e a admiração recíproca nos aproximaram. Com o tempo, cada qual trilhando seu caminho, perdemos o contato, até que, em 2013, nos encontramos na rua, por acaso, e eu a convidei para visitar uma intervenção minha, que estava acontecendo naquele momento. Durante a visita, Claudia realizou uma performance de modo espontâneo, no ambiente da intervenção, que constava de uma rede de pesca suspensa em uma árvore. Registrei a performance em vídeo e em fotografias, e rapidamente houve uma compreensão mútua de que poderíamos elaborar um trabalho conjunto. Alguns meses depois, realizávamos a primeira exposição em parceria, no Plataforma Espaço de Criação, então coordenado pelos artistas Clóvis Martins Costa e Lizângela Torres.


O que mais nos marcou, naquele momento, foi a liberdade: todas as decisões eram somente nossas, desde a seleção dos trabalhos até a montagem. Não convocamos curadoria, nem nos preocupamos com um texto de apresentação. Simplesmente reunimos imagens de ambas, que selecionamos dos arquivos digitais preservados em nossos HDs. Tudo fluía dentro da consciência de um tempo harmonioso e exuberante. Claudia Paim era, acima de tudo, uma alma independente. Imersa naquela proposição, ela decidiu acrescentar novos trabalhos e realizar uma performance inédita, a ser apresentada durante a abertura da mostra: em todos ela incluiria búzios coletados em praias do Uruguai e da cidade de Rio Grande. Foi quando lembrei das conchas que também tinha em casa, e então fotografei Claudia, no jardim do meu edifício, com mãos e conchas entre os cabelos, ou apenas segurando as conchas.


Várias foram as elucubrações poéticas durante esse movimento fecundo de ideias. Aquelas novas imagens eram a representação de um corpo e seus extremos (cabeça e mãos) se confundindo com a natureza, à qual acrescentamos significados relacionados com nossas visões de mundo. Vivíamos (e vivemos) situações limites: extremos climáticos, extremos político-sociais. Aquelas imagens poderiam ser, ainda, a transmutação de uma situação limítrofe, na qual as fronteiras se amalgamam e, inevitavelmente, se transformam. Mãos-cabelos-conchas-pedras-terra. Cabeça-corpo-natureza.


Claudia era forte, resiliente, imaginativa, bem-humorada, sem dramas. Poucos eram os obstáculos que ela não pudesse transpor. Se houvesse algum ranço de minha parte, em relação a algum iminente problema durante o processo de construção do trabalho, sua leveza e risada conseguiam desmanchar qualquer sombra. Como é possível imaginar, propostas conjuntas desdobram-se em um terreno delicado e, às vezes, com risco de grandes conflitos. No entanto, ela nada temia e inclusive sugeriu que nossos trabalhos (imagens e objetos, por exemplo) se posicionassem lado a lado nas exposições, formando uma única proposição. Como artista, Claudia Paim percebia a importância das práticas coletivas na contemporaneidade, tanto que desenvolveu pesquisa acadêmica sobre o assunto. Porém, de um modo muito mais amplo, sua obra magnetizava as pessoas em sua volta: a família, os amigos, os colegas, os artistas. Mesmo em suas atuações individuais – performances e ações em espaços públicos e na execução das fotoperformances – a participação do outro era inevitável. 
 

Foram inúmeras parcerias que ela estabeleceu ao longo de seu percurso artístico. O companheiro, músico e compositor Ulises Ferreti (falecido em 2014) fazia trilhas sonoras para seus trabalhos em vídeoarte, cuidava da sonoplastia de algumas de suas performances e instalações sonoras, além de fotografá-la em suas ações. Vários artistas integraram coletivos com Claudia, ou participaram direta ou indiretamente de seus projetos, fazendo registros importantes de sua obra, tais como: Luciano Zanette e Marcelo Gobatto (Coletivo POIS), Denis Rodriguez e Leonardo Remor (registros de performances), Ali do Espiríto Santo (videoperformance Não , 2016), Mauro Espíndola e Camila Leichter (Moinho Edições Limitadas), Leandro Machado, Claudio Maciel, Rodrigo Munhoz, Ali Khodr e Luciana Menna Barreto, entre outros.


Claudia Paim foi uma artista múltipla e generosa; uma artista que atuava tanto em coletivos quanto individualmente. Produzia instalações, performances, desenho, arte sonora, ação urbana, fotografia, objeto e poesia. Seu legado revela não apenas sua sensível e atenta personalidade, como a fluidez e a generosidade de seu “estar no mundo”: receptivo às pessoas, às coisas, aos espaços, aos seres. Enfim, uma artista aglutinadora e inesquecível que está aqui nesta exposição, com sua obra pulsante e transformadora. 

 

Dione Veiga Vieira

Porto Alegre, junho de 2019

de 29/06/2019 a 30/08/2019