segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Novas exposições na Pinacoteca Aldo Locatelli



 


Na próxima quinta-feira, 02 de agosto, serão inauguradas na Pinacoteca Aldo Locatelli três exposições de artes plásticas cujo foco é a emergência de artistas a partir da luta cotidiana para potencializar os próprios talentos, superando dificuldades e conquistando espaços no sistema das artes.

Com curadoria de Charlene Cabral, o instigante Porão do Paço dos Açorianos, sede da Pinacoteca, receberá a exposição dos artistas selecionados pelo PRÊMIO ALIANÇA FRANCESA DE ARTE CONTEMPORÂNEA 2018, cujo resultado final será então divulgado oficialmente. O certame, que está na segunda edição, visa apoiar e incentivar artistas em início de carreira.

  Na Sala da Fonte será apresentada a exposição DESENHOS ESQUEMÁTICOS do porto-alegrense Leandro Machado. Vencedor da edição 2017 do Prêmio Aliança Francesa, Leandro foi contemplado na ocasião com o prêmio-viagem, desenvolvendo uma residência artística de dois meses no Centre Intermondes, em La Rochelle, França. Nascido em 1970, o artista utiliza como referência o seu entorno, elementos do cotidiano e tudo que encontra pelo caminho como matéria-prima para criação.

A terceira exposição, intitulada IMPROVÁVEIS - A FORÇA DA VOCAÇÃO NUM UNIVERSO DE IMPOSSSIBILIDADES, apresenta um conjunto de obras da Pinacoteca Aldo Locatelli e da Pinacoteca Ruben Berta. Para um dos curadores, Luiz Mariano Figueira: “O adágio popular ‘o que não nos mata nos torna mais fortes’ é a síntese da trajetória dos artistas que compõem esta exposição: vieram de um meio onde o imperativo principal era a sobrevivência econômica; a maioria não teve acesso a uma educação e/ou formação no campo das artes, sendo autodidatas (naïfs) que aprenderam sozinhos a ‘caminhar no céu’.”

Os artistas participantes da mostra “Improváveis”, são os seguintes:

Antonio Cândido de Menezes (Porto Alegre, 1828 - 1908)


Batista da Costa (Itaguaí/RJ, 1865 - Rio de Janeiro, 1926)

Garcia (sem dados biográficos)

Guma (Tapes, 1924 - Porto Alegre, 2008)

J.Altair (Porto Alegre, 1934 - 2013) / João Alves (Ipirá/Bahia, 1906 - Salvador, 1970)

Magliani (Pelotas, 1946 - Rio de Janeiro, 2012)

Manabu Mabe (Japão, 1924 - São Paulo, 1997)

Manezinho Araújo (Pernambuco, 1910 - São Paulo, 1993)

Otacílio Camilo (Porto Alegre, 1959 – 1989) / Paulo Chimendes (Rosário do Sul, 1955)


João Alves - Bahia - 1963 - Pinacoteca Ruben Berta - foto F.Zago-StudioZ




exposições:



PRÊMIO ALIANÇA FRANCESA

de arte contemporânea 2018





DESENHOS ESQUEMÁTICOS

Leandro Machado





IMPROVÁVEIS

a força da vocação num universo de impossibilidades





Pinacoteca Aldo Locatelli / Paço dos Açorianos

Praça Montevidéu, 10, Centro Histórico – Porto Alegre



abertura: 02 ago 2018, quinta-feira, 19h





visitação: até 28 set 2018 / seg a sex, das 9h às 12h e das 13h30 às 18h

informações: (51) 3289-3735 / acervo@smc.prefpoa.com.br

www.pinacotecaspoa.com

gratuito

Abertura das exposições na Pinacoteca Aldo Locatelli

Registro fotográfico das aberturas das exposições na Pinacoteca Aldo Locatelli, no dia 2 de agosto de 2018.



DESENHOS ESQUEMÁTICOS -  LEANDRO MACHADO



Foto: Joel Vargas / PMPA

Foto: Joel Vargas / PMPA


IMPROVÁVEIS - A FORÇA DA VOCAÇÃO NUM UNIVERSO DE IMPOSSIBILIDADES

Foto: Joel Vargas / PMPA

Foto: Joel Vargas / PMPA


PRÊMIO ALIANÇA FRANCESA DE ARTE CONTEMPORÂNEA  2018 

Foto: Joel Vargas / PMPA

Foto: Joel Vargas / PMPA

Foto: Joel Vargas / PMPA

Foto: Joel Vargas / PMPA

Foto: Joel Vargas / PMPA

Foto: Joel Vargas / PMPA

Foto: Joel Vargas / PMPA
 
Foto: Joel Vargas / PMPA



sexta-feira, 29 de junho de 2018

Arte contemporânea na Pinacoteca Aldo Locatelli



A Pinacoteca Aldo Locatelli abriu no dia 26 de junho de 2018 três exposições contemplando diferentes facetas da arte contemporânea. As mostras seguem o princípio de expor o acervo próprio e, ao mesmo tempo, oportunizar ao público a apreciação de artistas selecionados por projetos curatoriais inovadores.
 
obra da artista Manoela Furtado
A mostra Uma Lâmpada no Porão: a fotografia como meio de expansão tem curadoria do alemão Klaus W. Eisenlohr e do porto-alegrense Eduardo Vieira da Cunha, segundo os quais:

“Desde cedo a fotografia vem desempenhando um papel de liderança no que se refere aos meios estendidos de produção artística. Para muitos artistas, foi o meio que permitiu expandir seu pensamento em relação às artes plásticas clássicas. Além disso, através da mudança para o meio digital, a fotografia, que mais recentemente se tornou ‘fotografia de arte’, novamente foi desafiada, e hoje se encontra imersa nas mídias sociais.

Procuramos obras em fotografia, ou trabalhamos com fotografias que desafiam o termo ‘fotografia de arte’. A presente exposição tem como lugar o porão do Paço dos Açorianos, com seu ambiente intimista e uma escuridão de adega, carrega a sombra de seu passado. Por conta disto, as obras precisam trabalhar com a sua própria luz e conter luz própria.

Primeira letra do alfabeto hebraico, O Aleph é um conto que dá nome a um livro de Jorge Luiz Borges dos anos 1940. O conceito da exposição associa-se à ficção de Borges, e ao fenômeno luminoso do transporte da imagem de um lugar a outro, que requer este ambiente de obscuridade, assim como as conseqüências imaginárias desta antiga experiência física da luz. No conto autobiográfico, Borges deita-se no escuro do porão, onde experimenta uma espécie de transe. Ele descreve o Aleph como uma pequena esfera de vidro onde os fragmentos de todo o espaço estariam presentes. Dele, seriam projetadas e unidas todas as imagens. Se todos os lugares estão no Aleph, ali, no porão, estariam todas as luzes. Assim, da escuridão surgiria a possibilidade da iluminação.”


 participantes
CHICO MACHADO  -  LEO CAOBELLI  -  NATALIA SCHUL
FLAVYA MUTRAN  -  LIZÂNGELA TORRES  -  TUANE EGGERS
ÍO  -  MANOELA FURTADO  -  WALTER KARWATZKI

obra da artista Natalia Schul
Obra da artista Flavya Mutran

Obra do artista Leo Caobelli
obra da artista Tuane Eggers




Lugares Seguros




Aqui são apresentados os resultados de um workshop voltado para fotógrafos e performers e a residência artística de Klaus W. Eisenlohr no estúdio Planta Baja e no Porão do Paço dos Açorianos. O objetivo do cineasta e artista visual alemão foi explorar espaços de Porto Alegre com acesso restrito:
“Os espaços públicos nas cidades ficaram mais e mais precários. Seja pela ameaça vivida numa experiência pessoal, ou apenas por uma questão de insegurança, mais e mais pessoas se retiram para lugares de acesso restrito, que estão sob vigilância pesada, são privados e estão cercados. Em última análise, alguns desses lugares são eliminados de todas as funções originais e servem apenas como espaço representacional para empresas ou instituições.
No workshop, foram buscadas práticas comuns ou incomuns com o objetivo de criar fotografias. Foi uma espécie de auto-empoderamento para os participantes. Encontrar espaços e criar estratégias convincentes para obter permissões de acesso foram gestos de capacitação pessoal. Abrir portas ultrapassando limites não só criou significados simbólicos (fotografias), mas experiências reais.”



participantes
ALEXANDRE DE NADAL  -  DANI AMORIM  -  GUILHERME MEDEIROS
NICOLAS LOBATO  -  RAFAEL GAMBA

convidados
FABIANO ÁVILA  -  DANIELA MENDES CIDADE


ANOS 90: RUPTURAS / CONTINUIDADES

Elton Manganelli. Baldios (Anunciação El Greco)”, 1993, acrílica sobre tela. Pinacoteca Aldo Locatelli.

 

Concebida como prolongamento da mostra “Despertar das Formas”, cuja intenção era investigar o modernismo nas artes plásticas em Porto Alegre, e que está em cartaz desde março no Paço dos Açorianos, a exposição Anos 90: Rupturas/Continuidades traz quatro pinturas em grandes dimensões e um livro de artista, todas estas obras pertencentes à Pinacoteca Aldo Locatelli. Conforme o texto de apresentação:
“No arco temporal que se estende dos inícios do século XX até a década de 1990 ocorrem significativas rupturas no campo das artes visuais. Técnicas e suportes tradicionais passam a conviver e em alguns casos são alterados após a incorporação da fotografia, do vídeo e da informática nas experiências realizadas. A proliferação das instalações, performances e também da crítica à mercantilização do objeto artístico, redirecionam o foco para novas relações entre artista e público. Porém, concomitante a estes desdobramentos extremos do modernismo, sobrevém, em vários países ocidentais a partir de meados dos anos 80 um retorno à pintura.
Tal fenômeno também pôde ser verificado em Porto Alegre, com muita força ao longo da década de 1990, apresentando nuances a serem apontadas. Em primeiro lugar, a predominância de quadros com grandes dimensões e por vezes, apresentando o retorno do políptico – obra com diferentes partes articuladas entre si. Em segundo lugar, o arrefecimento da disputa entre adeptos da figuração da realidade versus militantes do abstracionismo, cujas antagônicas posições marcaram o cenário das artes plásticas no Brasil, em especial a partir das primeiras edições da Bienal de São Paulo.
Em contraponto a tais mudanças, algumas continuidades são verificadas, tais como a retomada de uma iconografia de origem popular e o uso consciente de recursos da pintura naif por diversos artistas, mesmo os portadores de formação acadêmica. Mas, para além destas heranças modernistas, em diversos trabalhos surgem referências, seja por meio dos procedimentos da citação ou da releitura, aos temas anteriormente consagrados pela história da arte e a retomada de técnicas artísticas tradicionais.
Tais continuidades persistem na década de 1990, porém alteradas ou processadas durante o processo criativo de cada artista. Por exemplo, folhas de ouro – tradicionalmente utilizadas em objetos religiosos, elementos decorativos ou mobiliário – são aplicadas num livro configurado em suporte para intervenções de efeito pictórico. Assim, a expressão pessoal, outro cânone modernista, encontra terreno fértil no Brasil no período pós-regime militar, quando a democracia representativa é finalmente consolidada pela Constituição de 1988, garantidora formal da liberdade criativa. Por fim, cabe salientar neste momento a ocorrência de um novo fenômeno social, ainda a ser devidamente apurado: a irrupção de um público para a arte contemporânea, até então praticamente inexistente na Cidade.”

artistas participantes
ALFREDO NICOLAIEWSKY  -  ELTON MANGANELLI
KARIN LAMBRECHT  -  TERESA POESTER
 



Teresa Poester. “Maresia”, 1994, acrílica sobre tela.  Pinacoteca Aldo Locatelli.
Karin Lambrecht. Sem título, 1997, livro, folha de ouro, grafite e cera.  Pinacoteca Aldo Locatelli.

Alfredo Nicolaiewsky. “A luta”, 1992, acrílica sobre papel. Pinacoteca Aldo Locatelli.

Alfredo Nicolaiewsky. “A ilha”, 1992, acrílica sobre papel. Pinacoteca Aldo Locatelli.




Pinacoteca Aldo Locatelli / Paço dos Açorianos
Praça Montevidéu, 10, Centro Histórico – Porto Alegre
visitação: até 20 jul 2018 / seg a sex, das 9h às 12h e das 13h30 às 18h
Entrada Gratuita





 

quinta-feira, 26 de abril de 2018

A Ventura do Moderno



Há exatos cinquenta anos o magnata das comunicações Francisco de Assis Chateaubriand doava cento e vinte e cinco obras de arte a Porto Alegre, como parte de um projeto maior, de criar uma rede museus Brasil afora. Assessorado por Pietro Maria Bardi, diretor artístico do Museu de Arte de São Paulo – MASP, Chateaubriand presenteou a cidade com pinturas, esculturas, desenhos e gravuras de artistas de diversas tendências, atuantes entre o final do século XIX e a década de 1960. Majoritariamente composto por brasileiros, o conjunto foi, num primeiro momento, instalado no prédio da Rádio Farroupilha e da TV Piratini para em seguida ser abrigado no Paço Municipal e depois no MARGS. Transferido para no casarão da avenida Duque de Caxias em 2013, o legado de Chateaubriand foi batizado de Pinacoteca Ruben Berta, em homenagem ao ilustre empresário da aviação nascido em Porto Alegre.
Com a finalidade de celebrar o cinquentenário da Pinacoteca, a mostra A ventura do moderno apresenta um recorte da coleção, enfocando diferentes aspectos que a arte moderna assumiu no Brasil. As salas foram organizadas por temas que correspondem aos segmentos deste catálogo. E, em cada núcleo, buscou-se priorizar diálogos de ordem formal, que implicaram na renúncia de um rigor cronológico ou analogias de técnicas materiais. Assim, ao longo da exposição, desenhos e pinturas estabelecem estreito diálogo com gravuras e esculturas, intencionalmente evitando hierarquias entre linguagens artísticas. Além disso, a mostra reúne cerca de 30 obras de artistas procedentes de diversos estados do país, representando, à medida do possível, um cenário amplo, não acomodado a regionalismos.
É preciso ressaltar que a experiência de transitar pelo espaço, ora examinando obra a obra, ora agrupando visualmente conjuntos, é intransponível para a materialidade (ou virtualidade) de um catálogo, cuja dinâmica reside no folhear de página a página. Ademais, as narrativas construídas a partir de imagens, em uma exposição, e aquela concebida com palavras, em um texto, têm naturezas muito distintas. As histórias que se delineiam pela vizinhança física de trabalhos artísticos proporcionam diversas possibilidades de associações e leituras, visto que muitas são as opções apresentadas a um só tempo. O olhar pode vagar de um trabalho a outro pendurado ao lado, instalado na parede oposta ou entrevisto na sala seguinte. Cada obra é portadora de conexões em potencial e, a partir dela, podem-se desdobrar múltiplas narrativas que se entrecruzam, se espelham, se confundem ou se confrontam à medida que o olhar avança, retrocede, salta ou recomeça. O relato escrito, por sua vez, solicita que o leitor siga palavra a palavra, linha pós linha, as proposições do historiador. Ambas as linguagens – a visual e a escrita – têm suas particularidades e seus encantos, mas não se equivalem. Assim, as estratégias curatoriais, regidas pelo pensamento visual, migram obrigatoriamente de maneira limitada para o enunciado conduzido pela lógica da escrita.
Feita esta ressalva, seguem, na abertura de cada segmento do catálogo, notas que recuperam algumas aproximações possíveis entre as obras apresentadas nas salas expositivas, ao mesmo tempo em que apontam para diferentes direções que a arte moderna alcançou no Brasil.


A entrada

Pinturas de dois artistas residentes no Rio Grande do Sul saúdam os visitantes na antessala da exposição. O predomínio de tons amarelos aproxima Gente de circo, de Glênio Bianchetti, e Ribeirinha, de Angelo Guido. Entretanto, essas telas indicam diferentes tendências da arte moderna: enquanto Ribeirinha lida com uma questão mais impressionista – da incidência luz na paisagem – Gente de circo afina-se mais com o silêncio da pintura metafísica, construída com toques cubistas.

Glênio Bianchetti. Gente de circo, 1950. óleo sobre tela


Ângelo Guido. Ribeirinha, 1948. óleo sobre tela


Figuras humanas
A primeira imagem, nesta sala, é o Retrato de Rodolfo Jozetti, de Cândido Portinari. O jovem modelo – que poucos anos depois participaria da conservadora Ação Integralista Brasileira – é figurado em tamanho natural e em consonância com as regras da Academia Nacional de Belas Artes, onde Portinari estudava à época. Datada de 1928, é bastante provável que tenha sido exposta ao lado do Retrato de Olegário Mariano, pintura que lhe renderia o Prêmio de Viagem à Europa na XXXV Exposição Geral de Belas Artes. Mas para além da fatura tradicional, o que chama atenção é a eloquência dos atributos escolhidos, que colaboram para uma construção eficiente da imagem do retratado. Com um livro na mão e uma estante de publicações ao fundo, o rapaz é figurado como um intelectual promissor. A pose em pé com a mão na cintura, somado ao olhar direto, conferem um tom de determinação ao modelo, mesmo quando flagrado de robe de chambre sobre o peito nu, na informalidade do ambiente doméstico.
Como contraponto ao jovem letrado retratado por Portinari, a figura feminina traçada por Flavio de Carvalho está nua, sem outros predicados além do próprio corpo. Parece-nos desnecessário sublinhar o quanto esse par é constrangedoramente representativo do lugar que o homem e a mulher ocupam na tradição da arte ocidental.
A verticalidade das duas figuras rebate em outras obras desse grupo: tanto o Tocador de berimbau de Aldemir Martins, quanto Guerreiro de Xico Stockinger e Os caciques de Carybé portam objetos delgados, acentuando o aspecto longilíneo das representações.
Por outro lado, se a qualidade pictórica do Retrato de Rodolfo Jozetti dialoga com Mãe, de Di Cavalcanti, o grafismo do Nu de Flavio de Carvalho encontra paralelos em Mangue, de Lasar Segall, Mulher rendeira, de Sylvio Jaguaribe Ekman, e Menina, de Alice Soares.



Cândido Portinari. Retrato de Rodolfo Jozetti, 1928. óleo sobre tela 



Aldemir Martins. Tocador de berimbau, 1967. acrílica sobre tela

 
Xico Stockinger. Guerreiro, sem data. bronze  


Carybé. Os caciques, 1965. óleo sobre tela



Flávio de Carvalho. Nu, 1962. nanquim sobre papel.




Di Cavalcanti. Mãe, sem data. guache sobre papel



Lasar Segall. Grupo de Mangue (do Álbum Mangue), 1943. xilogravura


Sylvio Jaguaribe Ekman. Mulher rendeira, 1963. crayon sobre papel                       
Alice Soares. Menina, 1955. nanquim e aguada de nogueira

Paisagens
Ao considerar esse conjunto de obras, Figuras, de Di Cavalcanti é uma pintura-chave em vista de sua temática híbrida: se por um lado ela estabelece um diálogo com a Natureza-morta de Joaquim Lopes Figueira, por outro ela aproxima-se das demais pela relação com a pintura de paisagem. Enquanto os elementos em primeiro plano definem uma natureza-morta, o fundo da pintura configura uma paisagem marítima. A geometrização formal, assim como os tons azulados empregados por Di Cavalcanti encontram paralelos em Maracatu, de Marianne Peretti, e Ouro Preto, de Mário Gruber.[1]
            Na paisagem noturna da montanhosa Ouro Preto, o formato convexo da mancha sombria que faz a transição entre a cidade e o céu se repete com maior contraste em Retirantes, de Orlando Teruz, e Arraial da Glória, de Carlos Bastos. Na pintura de Teruz – cujo título, diga-se de passagem, não coincide com a imagem – o monte escuro se sobressai no cenário, contrastando com a tênue iluminação do fundo. A fileira de cavalos esvai-se à medida que a estrada em “S” adentra a pintura em direção ao desconhecido, criando uma profundidade tomada por mistério. Uma densidade semelhante – mas agora numa desolada zona industrial – emerge da pintura de Jatyr Antonio Loss. Uma faixa central, pouco iluminada, atravessa tela de lado a lado, e são as extremidades mais claras – os trilhos em primeiro plano e o skyline de chaminés ao fundo – que fornecem pistas para desvendar o todo.
            A composição da pintura Arraial da Glória, de Carlos Bastos, é estruturada de forma inversa: duas barras escuras emolduram a zona central, mais iluminada. E se a paisagem de Teruz suscita certa atmosfera de realismo fantástico, a de Bastos possibilita um encadeamento com a pintura popular, apresentada em outra sala da Pinacoteca Ruben Berta.


Di Cavalcanti. Figuras, 1967. óleo sobre tela   
Joaquim Lopes Figueira. Natureza morta, sem data. óleo sobre tela
Marianne Peretti. Maracatu, 1963. óleo sobre tela


Mário Gruber. Ouro Preto, 1966. óleo sobre tela
Orlando Teruz. Retirantes, sem data. óleo sobre tela. 



Carlos Bastos. Arraial da glória, 1966. óleo sobre tela


Jatyr Loss. Zona industrial, 1962. óleo sobre tela


Pintura popular
A partir da segunda metade da década de 1940, artistas sem treinamento formal começaram a ganhar visibilidade no circuito artístico de São Paulo. O caso do trabalhador rural José Antônio da Silva é célebre: descoberto por Paulo Mendes de Almeida, Lourival Gomes Machado e João Cruz e Costa, em São José do Rio Preto, em 1946, dois anos mais tarde teria uma exposição individual na Galeria Domus, a primeira dedicada exclusivamente à arte moderna. A mostra teve ótima repercussão e todas as obras foram vendidas.
No início da década de 1950, o eletricista Agostinho Batista de Freitas comercializava suas pinturas na Praça do Correio, no centro da cidade, quando foi notado por Pietro Maria Bardi, diretor do Museu de Arte de São Paulo. Pouco depois, o Masp lhe dedicaria uma exposição individual. 
            No Rio de Janeiro, o cantor e compositor pernambucano Manezinho Araújo, abre um restaurante de comida nordestina e começa a pintar na década de 1950. Na mesma época, em Porto Alegre, Guma observa professores e alunos da Escola de Belas Artes, onde trabalha como zelador, e arrisca-se no entalhe da madeira.
            Temas da cultura popular, como feiras, quermesses e festas em espaços públicos, assim como cenas rurais são assuntos frequentes desses artistas. Formalmente, a pintura naïf constitui-se, em geral, pela presença de duas ou mais das seguintes características: cores chapadas, contornos definidos por linhas, elementos que se repetem de maneira rítmica. A ausência de profundidade alterna-se com a perspectiva construída com recursos tais como ruas ou estradas inseridas em diagonal ou em curva e/ou figuras maiores em primeiro plano e menores ao fundo.
            Não raro, pintores com sólida formação artística se apropriaram desse vocabulário e produziram trabalhos à maneira do popular, sobretudo a partir de meados da década de 1950. São o caso, nessa mostra, de Chanina, Rubens Martins Albuquerque e Zorávia Bettiol.



Agostinho Batista de Freitas. Carro de boi, 1963. óleo sobre tela



Manezinho Araújo. Quermesse, 1966. óleo sobre tela


 
Guma. Brandão, 1971. madeira


 
Chanina. Paisagem, 1967. óleo sobre tela
   

Rubens Martins Albuquerque. Floresta pré-histórica, sem data. óleo sobre papel



Zorávia Bettiol. Passeio no Parque, 1965. xilogravura

Abstração
Ainda que a arte abstrata tenha ocupado um lugar de destaque na cena brasileira por mais de uma década, nesta exposição apenas três obras representam sua vertente lírica, por contingências espaciais. A pintura monocromática de Wakabayashi dialoga com a gravura em metal de Anna Letycia, quer pelas formas circulares análogas, quer pela pesquisa em torno das texturas. A xilogravura de Fayga Ostrower, assim como o trabalho de sua colega de ofício, encontram na natureza a matéria primordial de sua confecção. Por outro lado, a sobreposição de figuras pontiagudas na Composição de Fayga alude remotamente ao concretismo, importante tendência que também integra a ventura do moderno no Brasil.

Kazuo Wakabayashi. Branco, 1966. óleo sobre tela

Anna Letycia Quadros. Composição, 1966. gravura em metal

Fayga Ostrower. Composição, 1966. xilogravura

Regina Teixeira de Barros


[1] A título de curiosidade: quando Mário Gruber pintou Ouro Preto, encontrava-se em viagem de lua de mel com sua ex-aluna Cecília Helena Décourt. Informação cedida por Paulo Torres, a quem agradeço.